O Graal em livros polémicos!

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Como tudo na vida, há sempre um início. E este, da coluna chamada “Voz Templária”, tem o seu com um assunto que, apesar de tudo, continua a ser motivo de alguma exacerbação. O objectivo desta primeira crónica é, essencialmente, de enumerar um pouco aquilo que é escrito em dois dos mais polémicos livros, supostamente sobre os Templários. Na realidade, há um aproveitamento indevido da palavra, para tentar vender. Nada de anormal, num mundo consumista. Entendemos, no entanto, que era urgente discorrer um pouco sobre o que mais adiante de escreve. Outra das motivações subjacentes a este artigo é tornar interactivo a relação com os leitores. Queremos saber a sua opinião sobre o tema em questão. A “Voz Templária” será, sempre, o chamado artigo-de-fundo, ou tema-de-capa; ou, o mesmo é dizer, o tema ao qual o leitor será convidado a opinar, textos que, posteriormente, de acordo com o espaço e com a pertinácia, serão transcritos na zona própria do “Correio do Leitor”. Naturalmente, que todos os artigos poderão ser debatidos por vós, mas, seja como for, pedimos particular atenção para os temas-de-capa e queremos saber a sua opinião. Para isso, no final do presente artigo, segue o endereço de correio electrónico, para onde poderá enviar suas considerações ou, em alternativa, utilizando o contacto da revista. Obrigado!

Aproveitando a época de um crescente interesse pelas obras literárias no campo do esoterismo, foram publicados dois títulos que, mesmo cada qual com o seu estilo, têm dado que falar, não só nos meandros culturais, mas, igualmente, um pouco pela sociedade. Parece-nos que, actualmente, o chamado best-seller “O Código Da Vinci” é o título mais apoiado e criticado entre todos. Os livros que provocam emoções extremas, normalmente, tratam-se ou de obras que sobreviverão à actualidade ou aquelas que, feitas por encomenda, nada mais valem do que o seu valor actual, medido pelo número de exemplares vendidos.
Não querendo, até porque não se trata de um espaço literário, ocupar estas páginas com opiniões pessoais, sobre qualquer uma das obras referidas no título da presente crónica, e que preencherão o espaço da mesma, gostaria, ainda assim, de deixar breves notas prévias: o livro “O Código Da Vinci” é, na realidade, como até o menos culto dos homens compreenderá, um policial romanceado, que aproveita temáticas que, de grande maneira, são passíveis de provocar sentimentos opostos, ao passo que “Maria Madalena e o Santo Graal” pretende ser uma obra no campo do ensaio histórico, mesmo que misturando excertos ficcionais.
Estamos, portanto, a lidar com duas realidades opostas. Pesquisámos pela página na Internet do autor Dan Brown, que redigiu “O Código Da Vinci” e apercebemo-nos de que tudo foi feito e pensado de uma maneira bastante profissional – a editora, em conjunto com o autor, esmeraram-se para dar ao policial romanceado um certo ar de ficção histórica. Por assim dizer, parece-nos que os intentos foram concretizados. Isto, apesar de diversas pessoas nos terem escrito, a título pessoal, discorrendo negativamente sobre a obra, apesar de a terem lido. Enfim, não nos parece exeqüível que tenhamos de gabar o mérito da idéia ou da concepção de uma obra literária e, ao mesmo tempo, se considere, automaticamente, que estamos a elogiar o conteúdo da mesma. São realidades distintas, e não aventamos qualquer opinião pessoal sobre o conteúdo pois, voltamos a frisar, não se trata aqui do local ideal, por não ser uma revista literária.
Em relação ao título “Maria Madalena e o Santo Graal”, cujos editores afixaram, na capa, que “foi o livro que inspirou «O Código Da Vinci»”, trata-se de uma obra mais antiga no tempo, em termos de publicação original, trazida à ribalta pelo sucesso da controversa obra de Dan Brown. Mas, ainda assim, estamos a falar de um conjunto de textos mais ambiciosos na temática, mas não tanto ao nível da escrita. Por assim dizer, Margaret Starbird, a sua autora, possui menos atributos ao nível da escrita de multidões. Talvez por essa razão, a sua igualmente polémica obra tenha andado um pouco afastada do grande público até, por arrastamento do livro que “inspirou”, ser resgatada de algum silêncio mediático.
Concluído que está este breve intróito, convenhamos que a posterior análise será efectuada de moldes diversos aos que é costume acontecer, visto que não iremos esmiuçar capítulo a capítulo, nem tão pouco a trama de nenhuma das obras. Essa análise já foi, evidentemente, feita, vezes sem conta, pelos críticos literários.
Aquilo que humildemente iremos tentar concretizar é dar a conhecer alguns dos aspectos mais polémicos de ambos os títulos, até porque, de acordo com a nossa leitura, de facto existem vários pontos em comum e ambos se complementam.
Existe, já, uma obra, da autoria de Simon Cox, intitulada “O Código Da Vinci Descodificado”, o qual os editores clamam ser “o guia não autorizado dos factos por detrás da história”. Tivemos a oportunidade de apreciar, igualmente, esse livro e, aparentemente, pode ser uma boa sugestão de leitura para quem queira compreender, ainda melhor, inclusivamente de forma pormenorizada, aspectos factuais da muito vendida obra de Dan Brown.
Pela nossa parte, desejamos, desde já, que o presente artigo, feito com a humildade fundamental, seja um bom momento de leitura e, obviamente, que ilumine um pouco mais o conhecimento de cada um. Não se obedecerá a nenhum dos cânones previstos para uma crítica literária. Antes, seremos levados ao sabor do vento das páginas a ser desfolhadas. Doravante, para melhor identificação, usaremos a sigla CDV para “O Código Da Vinci” e MM para “Maria Madalena e o Santo Graal”.
Em CDV, há, como em todos os romances do género policial, um crime inicial. A partir daí, a trama é desenvolvida numa sequência alucinante, ou não fosse o seu autor um especialista neste género literário. No entanto, de quando em vez, há pistas simbólicas que nos vão sendo referidas e abordadas, de uma maneira mais ou menos sucinta. Em MM, a autora descreve-as mais detalhadamente. Tentaremos, de alguma maneira, fazer um paralelismo. Nas ocasiões em que não seja possível fazer coincidir uma obra com a outra, ficará a versão mais descrita. Porém, é de convir, antes de mais, que o presente artigo não pretende reafirmar qualquer teoria. Trata-se de uma crónica meramente expositivo e não vinculativa.
Refere o Rev. Terrance Sweeney, no seu prefácio à obra MM, que “a verdade não é determinada pelo desejo humano, ou por decreto humano. A verdade está na harmonia da mente e do coração humanos”. Para além disso, Sweeney, tenta ainda discorrer sobre alguns dos cristãos gnósticos do passado, e a sua noção de sexo, dando o exemplo de Marcião (que permitia o baptismo apenas às virgens e aos casais que renegassem ao sexo), Júlio Cassiano (o qual dizia que o sexo transformava os homens em animais e que Jesus viera à Terra para evitar que o Homem copulasse), Tatiano (achava que o sexo fora uma invenção do diabo) e Orígenes (afirmou que nada perturbava mais o Homem que as carícias de uma Mulher). Afirma ainda que, a partir do séc. IV, a Igreja proibiu os padres casados de terem relações sexuais e de procriar. E, antes de terminar, vai directo ao tema central da obra MM, a possível união, pelo casamento, entre Jesus Cristo e Maria Madalena, a chamada “mulher do vaso de alabastro” que ungiu Jesus pouco antes da sua execução. E fornece as suas razões para crer que Jesus fora casado: na época de Cristo, o judaísmo via o casamento como um cumprimento do desejo de Deus; está provado que os pais de Jesus lhe terão procurado uma noiva adequada; e S. Paulo, ao apresentar as razões do celibato, nunca referiu o exemplo de Jesus.
Serve, como tal, o prefácio do Rev. Terrence como a ignição por detrás do movimento em frente do conjunto de textos de Margaret Starbird, no seu MM. Em CDV, Dan Brown, entra a falar do Priorado de Sião, dando a conhecer alguns aspectos dessa sociedade secreta: de origem européia, terá sido fundada em 1099. Refere o autor que, em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu os “Les dossiers secrets”, identificando alguns membros do passado, entre os quais, supostamente, estariam Isaac Newton, Da Vinci, Victor Hugo e Botticelli. Ainda de acordo com o autor, a tradição do Priorado ao perpetuar o culto da deusa baseia-se na convicção de que homens poderosos, pertencentes à primitiva igreja cristã, enganaram o mundo propagando mentiras que desvalorizaram o feminino e fizeram pender a balança para o lado masculino.
O Priorado acredita que o Imperador Constantino, no Concílio de Nicéia (no século V), e os seus apoiantes, conseguiram converter o mundo do paganismo matriarcal ao cristianismo patriarcal, montando uma campanha que demonizou o lado feminino. Para comprovar isto, atente-se na caça às bruxas, às ciganas e a todo o tipo de místicas, ou inclusivamente às parteiras, de modo a que nenhuma mulher de livre pensamento pudesse aceder aos locais de chefia religiosos. Ao Priorado teria pertencido Godofredo de Bulhão, o qual, durante os seus anos em Jerusalém, teria sabido da existência de grande quantidade de documentos nas ruínas do Templo de Salomão e teria criado os Cavaleiros Templários para proteger o espaço e o segredo. Enterrado sob o Santo dos Santos (câmara sagrada onde se acredita que residira Jesus) estariam os misteriosos documentos. Uma noite, os mesmos teriam sido transportados pelos templários de La Rochelle.
Ora, Margaret Starbird, evoca, também, estas problemáticas. Segundo ela, em MM, o culto do feminino, que tentam apagar, tem sido mais visível ultimamente. As aparições da Virgem Maria que chora, são uma prova de que há uma mensagem que tenta ser passada por algo superior. Refere ainda que a ferida no feminismo tem sido dolorosamente sentida pela Humanidade, com um impacto desastroso na nossa cultura. Com a espada, símbolo masculino, é liderado o mundo, flagelando-o com violência e destruição. Ainda em MM, no mundo antigo, o equilíbrio seria respeitado. Mas, posteriormente, passou ao culto do “macho” e a adoração do primogénito prevaleceu. Apesar disso, até ao séc. III a.C. as sociedades eram matriarcais, sendo Cleópatra e a Rainha do Sabá dois exemplos.
Ainda referindo-se à questão merovíngica, e a ligação do Priorado de Sião, a autora de MM relata-nos que o termo “meronvígio” se pode dividir em “mer” (mar) e “vin” (vinha), originando, supostamente, a palavra Vinha de Maria. Como veremos mais adiante, a palavra “vinha” é extremamente importante em todo este contexto. Para já, fixemo-nos na I Cruzada, a qual, de acordo com o livro de Starbird, teria sido uma tentativa de recolocar um herdeiro davídico no trono de Israel – no caso, o mesmo Godofredo de Bulhão, atrás referido. Esta ligação “mariana”, pode ainda encontrar-se na noção de que em Jerusalém todas as festas se relacionavam com Maria. Para além disso, as Madonas Negras, dos antigos altares europeus, podem ter sido veneradas como símbolos de Maria Madalena e da sua filha Sara. (A título de curiosidade, em MM, escreve-se que o símbolo da casa de David era um bordão florido, mas o símbolo feminino seria um cálice – uma taça contendo o sangue real de Jesus, o Santo Graal!).
Abordemos, agora, a questão da “vinha” e da suposta filha de Maria Madalena. Segundo MM, muitas passagens bíblicas usam a palavra “vinha” como metáfora para o povo escolhido por Deus. Maria Madalena seria, por assim dizer, a vinha. E quem era Maria Madalena?
Segundo Margaret Starbird, seria também conhecida por Maria de Betânia, irmã de Marta e Lázaro. É Maria que se senta ao pé de Jesus e o unge com espicanardo, da cabeça aos pés, como referido por S. João. Ela fora exorcizada, por Cristo, de sete demónios e, para além disso, tornou-se, de acordo com a autora de MM, sua amiga íntima e posterior companheira.
S. Bernardo de Claraval (referência ao salmo “Cântico dos Cânticos”), mentor dos Templários, acreditava na comparação da noiva à igreja e à alma de cada crente. O protótipo que ele definira para ilustrar essa “noiva” de Cristo fora precisamente Maria, irmã de Lázaro, que se senta a seus pés (S. Lucas, 10:38-42) e o unge e seca com os próprios cabelos (S. João, 11:2, 12:3). S. Bernardo, ainda de acordo com a autora do livro MM, também avança com a hipótese de Maria de Betânia e Maria Madalena serem uma e a mesma pessoa. Diz a Bíblia, no Cântico de Salomão: “Designaram-me guardiã dos vinhedos” (Cântico, 1:6) e, mais adiante, “tu és, inteiramente bela, ó companheira minha, e não há defeito em ti. Que venhas comigo do Líbano, ó noiva” (4:7,8), e “fizeste meu coração palpitar minha irmã, noiva (minha)!” (4:10).
Ainda na mesma obra, citando o evangelho gnóstico segundo Filipe: “havia três que acompanhavam sempre o Senhor: Maria, a sua mãe, a irmã desta e Madalena, aquela a quem chamavam a sua companheira”; e mais à frente refere-se que Cristo beijava-a freqüentemente na boca. Para além disso, na Bíblia, o termo irmã-noiva, como vimos acima, era freqüentemente utilizado. Segundo Margaret Starbird, a noiva, ou deusa da Terra, era a esposa do sol, assim como amiga e parceira do noivo divindade, sua imagem no espelho e outra metade, irmã-gémea. Um sem o outro não existiria. A relação entre os dois era muito mais que uma mera relação sexual, era uma intimidade espiritual e parental.
Antes de seguirmos, novamente, para a obra de Dan Brown, debrucemo-nos em duas questões igualmente polémicas. A primeira, a do termo “prostituta” que, de geração em geração, tem sido a denominação mais frequente para Maria Madalena. De acordo com o livro MM, S. Marcos e S. Lucas não dizem nunca que ela seria prostituta. O termo até é inadequado, pois “hierodulae” (ou “mulher sagrada” do templo da deusa) seria a tradução mais fidedigna. Por alturas do neolítico, nasceu a ideia da adoração feminina, época em que a sexualidade era sagrada. As “hierodulae” eram deusas que oficiavam no templo do amor.
Madalena ungiu Jesus e este falou que ela o preparava para o seu funeral. Esta tradição fazia parte do culto do sol poente/nascente e dos deuses da fertilidade. Em tempos muito recuados, a unção era o único privilégio da noiva real. Para além disso, segundo Starbird, a arte, a partir do séc. XII reforça a ideia de Madalena deixar de ser representada como uma prostituta, para passar a ser ilustrada como a amada e Jesus, dada a intimidade entre ambos nas pinturas.
A segunda questão polémica diz respeito à suposta filha de Maria Madalena, Sara. Em MM crê-se que Jesus, ao contrário do que se tem afirmado, não seria um mero filho de carpinteiro, mas herdeiro de uma linhagem real. Era conotado com a ala mais radical da época e as multidões viam nele um líder. Por isso, os romanos, ao crucificarem Cristo, escreveram na respectiva cruz: Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus (INRI), até porque o consideravam um revolucionário e líder de rebeliões. Assim sendo, a suposta filha de Jesus e Madalena, por ser oriental, teria uma tez mais escura. A confirmar-se a fuga de Madalena para França, após a crucificação de Jesus, faz sentido que, entre 23 a 25 de Maio, anualmente, na cidade de “Les-saintes-maries-de-la-mer”, se celebre no altar de Santa Sara, a egípcia, ou Sara Kali (rainha negra, similar à Madona Negra). No entanto, a autora de MM entra em contradição, ao afirmar inicialmente que Madalena carrega, no ventre, o sangue real (Sangraal), ou seja, a filha de Jesus, Sara, ao passo que, em outra altura, afirma que Sara nasceu no Egipto. Como tal, não fora no ventre para França!
Mudando a nossa atenção, agora, para o CDV, convém que deixemos um breve parêntesis: praticamente todos os assuntos atrás tratados, seguindo a direcção da autora Margaret Starbird, são focado por Dan Brown, pelo que seria fastidioso voltar a repisar em assuntos similares. Como tal, pretendemos focar outras perspectivas, mais originais, surgidas em CDV.
A iniciar a obra, o autor, cuja principal forma de descrição se baseia muito no visual (aproveitando telas existentes, ou pormenores arquitectónicos reais, para lhes dar um cunho pessoal, ou simbólico), discorre sobre a nova entrada do famoso Louvre (Paris), conhecida por “La Pyramide”. Segundo o autor, a mesma fora construída com exactamente 666 painéis de vidro, a pedido expresso de François Miterrand, figura proeminente da política francesa. Como todos sabemos, o dístico 666 tem sido associado, com frequente, ao “número da besta”, ao “anticristo” e ao “Satanás”.
Para além disso, fala da “Crux Gemmata”, uma fantástica cruz com 13 gemas incrustadas (simbolicamente, a representação dos 12 apóstolos + Jesus Cristo), um crucifixo de prata. Fala, também, do pentáculo: símbolo pré-cristão, relacionado com o culto da natureza. Os antigos imaginavam o mundo dividido em duas metades – o masculino e o feminino (yin e yang). O pentáculo representa o lado feminino de todas as coisas, ou seja, o sagrado feminino – ou deusa divina. Para Dan Brown, o termo pagão tornara-se sinónimo do culto do diabo. Porém, o termo “paganus” significa habitante do campo, pessoa pouco doutrinada, fortemente ligada ao culto do essencial, da natureza, do alimento, do sustento. O medo das autoridades em relação aos habitantes era tal, que o termo vilão (que significa o que vive numa aldeia ou vila) se converteu numa denominação de pessoa má.
Em CDV, fala-se, ainda de questões matemáticas (supostamente, para uma ligação a algo que ninguém escamoteia – os grandes conhecimentos matemáticos dos cavaleiros Templários), tais como: a sucessão do matemático Leonardo Fibonacci (1-1-2-3-5-8-13-21), na qual cada termo numérico é igual à soma dos dois anteriores. Aborda-se ainda o número PHI (1.618), que deriva da sequência atrás mencionada, pois os quocientes de dois termos adjacentes se aproximam do número referido, também chamado de proporção divina. Por exemplo: numa comunidade de abelhas, há sempre mais fêmeas que machos, sendo que a proporção é de 1.618 por comunidade. Se medirmos a distância do ombro às pontas dos pés, e então a dividirmos pela distância do cotovelo às pontas dos dedos, teremos então 1.618. Foi talvez por isso que quando os antigos descobriram este valor tiveram a certeza de que o PHI era o tijolo que Deus usara para construir o Universo.
Depois, podemos em CDV observar as seguintes situações pictóricas: os actuais símbolos de feminino e masculino derivam de antigos símbolos astronómicos de Marte e Vénus. Os símbolos originais são extremamente simples: ^ para masculino, ou falo rudimentar, e v para feminino, ou oposto (chamado cálice). Este último assemelha-se a uma taça, ou vaso, evoca a forma do útero feminino. O Santo Graal seria, então, uma metáfora para dizer que era uma mulher (o seu poder de dar vida), ou, no caso, Maria Madalena. Na obra de Margaret Starbird, também se fala, e muito, do Graal ou Sangraal. Assim, dá-se três teorias: na primeira, conta-se que, no século XII, os poetas medievais mencionam uma “família do Graal”, quiçá os guardiães do cálice, que, mais tarde, se mostram indignos desse privilégio; a segunda, focando os estudiosos, refere uma ligação entre Sangraal e Gradales, palavra que significa taça ou bacia, na língua da Provença; e, por último, a terceira teoria promove a divisão da palavra, ficando Sang Raal, ou Sangue Real, que uns pensam dever-se ao sangue de Jesus que José de Arimateia levou para França e outros colocam-no como a filha de Maria Madalena, o sangue real que carregava no seu útero. Nenhuma das explicações parece convencer ninguém.
Outros aspectos pictóricos: no quadro, “A Última Ceia”, se se observar cuidadosamente, a personagem que se encontra ao lado direito de Jesus assemelha-se a uma jovem, com um ar piedoso, com rosto tímidos e cabelos avermelhados. Há quem acredite denotar, por baixo da túnica, seios femininos. Dan Brown crê que o quadro comprova a ligação entre Jesus Cristo e Maria Madalena, visto que na pintura são o reflexo um do outro. Jesus, com uma túnica vermelha e um manto azul; Maria Madalena (a suposta jovem ao seu lado) com túnica azul e manto vermelho; um perfeito Yin e Yang. Jesus e a suposta noiva parecem estar ligados pela anca, inclinando-se para longe um do outro, formando a forma arcaica do cálice, o v. Também, no quadro, se levanta a polémica criada pelos textos apócrifos, nos quais se lê que Pedro sentia inveja de Maria Madalena, visto que esta seria a sucessora de Cristo. No entanto, Pedro consegue ser a pedra na qual se estabelece o cristianismo. Neste “A Última Ceia” nota-se que Pedro abraça Maria Madalena (a suposta jovem do lado direito de Cristo), com o gesto do pescoço cortado, como uma faca. Surge, também, uma misteriosa mão no quadro, que, aparentemente, não pertence a ninguém, empunhando uma ameaçadora adaga.
Última referência simbólica do livro CDV: Baphomet seria um deus pagão da fertilidade, associado à força criativa da reprodução. O Tarot é um catecismo através das cartas, com a história da “noiva perdida” e da sua subjugação pela igreja má. Espadas eram espadas (masculino, lâmina); copas eram taças (cálice, feminino); paus eram ceptros (linha real, bordão florido); e ouros eram pentáculos (deusa, sagrado feminino).
Rosslyn Chapel – chamada a “catedral dos códigos” – ergue-se a 10 quilómetros de Edimburgo, na Escócia, no local de um antigo templo mitraico, construído pelos cavaleiros do Templo em 1446. A capela está coberta de uma estonteante profusão de símbolos ligados às tradições judaica, cristã, egípcia e maçónica. As coordenadas do templo coincidem com o meridiano que passa por Glastonbury, a linha da rosa longitudinal que marca, tradicionalmente, a Ilha de Avalon do rei Artur e é considerada o pilar central da geometria sagrada britânica. Os templários tinham concebido a capela segundo o plano exacto do Templo de Salomão, em Jerusalém, com um muro ocidental, um estreito santuário rectangular e uma cripta subterrânea. O autor também refere, no final de obra, que o Graal seria as ossadas de Maria Madalena, no desfecho do texto. Passando, também, por “A Madonna dos Rochedos”, de Da Vinci, na qual a encomenda não fora feita exactamente como solicitado, até ao pormenor das abóbadas e respectiva técnicas de construção, Dan Brown opina um pouco sobre todos os pormenores simbólicos que achou por bem aproveitar para o seu romance policial. Por aqui termina a exposição relativa, apenas, ao CDV.
Saltando para o MM, e ignorando aquilo que, por excesso de informação, nos mereceu menos atenção, concentremo-nos em três questões díspares, antes de irmos directos ao “Hierosgamos”, um ritual que, através do Dicionário dos Símbolos, da autoria de Tom Chetwynd, tentaremos aprofundar. Para já, falemos, um pouco, dos Cátaros, com a ajuda do texto de Margaret Stabird: segundo ela, seriam pregadores itinerantes, chamados “puros”, que trabalhavam nos campos e partilhavam o pão. Acreditavam que a sua visão do cristianismo estava mais próxima dos ensinamentos de Jesus e eram, frequentemente, vegetarianos. Detinham forte interesse pela vida espiritual e revelavam falta de entusiasmo pelo casamento, levando uma vida simples e de fé radical. A sua fé era praticada em qualquer lugar, como nos lares e nos campos, não necessitando de edifícios monumentais cheios de artefactos. Visto que homens e mulheres eram considerados iguais, estas últimas podiam pregar.
Os trovadores, que eram, por assim dizer, cantores e escritores dos séculos XII e XIII (aos quais, segundo se diz, o rei português D. Dinis terá pertencido…), seriam provavelmente cátaros. No dizer da autora de MM, a dama exaltada, de que tanto falavam as suas trovas, era o próprio culto ou heresia, aos olhos da igreja cristã.
Por último, debrucemo-nos sobre um ritual sumério de Dumuzi e Ianna, em que o rei torturado e sepultado, ressuscitava ao fim de um breve período, normalmente três dias. A autora faz uma analogia com Jesus Cristo e a sua crucificação e consequente ressurreição. Dumuzi era conotado com a divindade babilónica da fertilidade, Tammuz. Por sua vez, a comunidade infiel de Israel adorava os ídolos pagãos como Astarté e Baal (similar a Dumuzi), revelando que, de uma certa maneira, a interligação entre tudo isto era alguma.
Reservámos, para último, o “Hierosgamos”, ou “Hierogamos”, ou, ainda, “Hiero Gamos” (são as três versões apresentadas em várias obras consultadas. Por uma razão muito curioso, e para que todos possamos reflectir, e muito, sobre aquilo que lemos, e que, supostamente, nos é fornecido como verdade inequívoca. Primeiro, começámos por demonstrar que a mesma palavra, aparentemente, pode ser escrita de várias maneiras diferentes, dependendo do autor. Agora, vejamos o que cada autor, todos eles conceituados, referem sobre esta cerimónia.
Comecemos pelo CDV: aqui, esta cerimónia (chamado “outrora sagrado acto” ou “natural união entre Homem e Mulher através do qual se tornavam espiritualmente completos) data de há mais de dois mil anos. Os sacerdotes e sacerdotisas egípcios celebravam-no freqüentemente para honrar o poder reprodutivo da fêmea. É uma palavra grega que significa casamento sagrado e era um acto espiritual. Historicamente, a relação sexual era o acto através do qual o macho e a fêmea experimentavam Deus. Os antigos acreditavam que o homem era espiritualmente incompleto até o concretizar. Em MM, diz-se: era um matrimónio sagrado, que sucedia na Grécia. Era um ritual em que a unção da cabeça, tendo um significado erótico (cabeça igual a falo). O noivo escolhido era ungido pela sacerdotisa real, e este passava a ser o “Messias” (em hebreu). A sua esposa era a grande deusa. Só com as invasões indo-arianas (3500 a.C.) surgiu a idéia de uma suprema divindade masculina. Com o tempo, a adoração à deusa-mãe deixou de fazer-se, sendo substituída pelo culto masculino.
E, já agora, a terceira versão, desta feita através da pena de Tom Chetwynd, no seu “Dicionário dos Símbolos”: aqui, o “Hieros Gamos”, ou casamento sagrado (ponto no qual todos coincidem!), é considerado o único casamento verdadeiro entre os Deuses do Olimpo. Ou seja, estamos a tratar de mitologia e da união entre Zeus (homem) e Hera (mulher).
Não pretendendo alongar-nos, muito mais, em relação a estes assuntos, eis que chegámos, finalmente, a algo que chamarei “conclusão em aberto”, visto que dependerá de todo e de cada um. Pensamos que, acima de tudo, tratando-se de material polémico e extremamente controverso é, como tudo, motivo de discórdia e de teorias contrárias. Talvez por isso jamais chegaremos a um consenso sobre nenhuma destas matérias. Talvez, inclusivamente, exista alguém que, realmente, saiba as respostas às questões que a maioria de nós debate mas que, por alguma razão extraordinária, as não deite ao sabor do vento.
Finalmente, se nos é permitido, e como sempre temos afirmado – desde o primeiro momento em que nos iniciámos pelos caminhos desta matéria – a verdade é que tudo isto transforma esta matéria em estudo extremamente interessante, em motivo de imensa literatura, enfim, se não se tratasse de algo realmente importante, não mais lhe fariam que ignorar. Como todos sentimos vontade de saber as respostas é porque, de facto, é insofismável afirmar que é algo de transcendental que nos pertence a todos e, por assim dizer, não pertence a ninguém em particular.

Bibliografia:
– Dan Brown, “O Código Da Vinci”, Bertrand Editora, Portugal, 2004
– Margaret Starbird, “Maria Madalena e o Santo Graal (A mulher do vaso de alabastro)”, Quetzal Editores, Portugal, 2004
– Tom Chetwynd, “Dicionário dos Símbolos”, Planeta Editora, Portugal, 2004

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